quinta-feira, 17 de setembro de 2009

O menino que queria ser estrela

Não era um menino como qualquer outro. Era de poucos amigos, escassas palavras e muitos sonhos. Tinha olhos curiosos e brilhantes; e uma beleza travessa e escarnecida.
Franzino, grandes óculos, roupas que o engoliam, e sapatos que lembravam pantufas.
O bom menino todos amavam. Era exemplo na família, na escola. Não há quem não o quisesse, como filho, o bom menino.
Na escola não descia para o recreio. Ficava cabisbaixo no fundo da sala. O som dos gritos e risadas no pátio não eram convidativos. Às vezes, era notado por alguém que o obrigava a descer.
Quando isso ocorria, não conseguia se misturar as outras crianças e quando muito, se aproximava de outros amigos esquisitos como ele.
Na aula de educação física, um sofrimento. Faziam-se grupos, à revelia, e não podia escolher com quem estar.
O menino incomodava. Os colegas o não compreendiam e não sabendo como lhe dar com aquele sentimento expressavam dando-lhe tapinhas, pontapés e beliscões.
O menino não entendia. Nada fazia para isso. Ao contrário. Sempre que tinha um biscoito, repartia. Sempre que lhe davam um oi, sorria e a qualquer favor, atendia.
Talvez esse fosse o problema. Quem muito se abaixa, os fundilhos mostra, diz o ditado.
Um dia voltando da escola para casa, percebeu na esquina um de seus “inimigos”. O coração tornou-se acelerado e prevendo o que o esperava, começou a tremer involuntariamente.
O muleque na esquina o esperava. Era um dos meninos que mais o perseguiam. Esse muleque cismara que o menino havia dito calunias sobre ele. Ou isso, ou simplesmente inventara, para punir o menino.
O menino passou, o muleque o seguiu, o empurrou. Era maior que ele. E mesmo que não fosse, aprendera em casa a não ser violento e o não sabia ser.
O muleque só o largou quando viu o sangue em seu nariz.
De joelho ralado, e roupa empoeirada, o menino seguiu para casa. Lá chegando, trancou-se no quarto a chorar. Não entendia a perseguição e não queria ser mais gente.
Ninguém gosta de mim, dizia à mãe que replicara com grosserias: deixa de bobagem menino, que história é essa? Não vai deixar de ir pra escola coisa nenhuma! Você não tem problema nenhum! Tem uma casa, tem comida, tem pai e mãe. O que pode estar lhe faltando?! Não se faça de vítima!
O menino não conseguia fazê-la entender.
E cada dia mais, foi ficando triste, triste e decidiu que queria ser estrela.
Como assim, estrela? Não tô dizendo que esse menino tá precisando de umas lapadas?! Disse a mãe. Não faz nada na vida, só estuda, e agora quer ser estrela! É isso que ensinam na sua escola?
O menino nada dizia. Só conseguia querer. Querer ser estrela. Estava determinado.
A mãe do menino não deu muita importância pro caso. Achava que era coisa de criança e que logo aquilo ia passar. Tinha mais com que se preocupar. Uma casa inteira pra arrumar, a jantar do marido pra fazer...
O menino seguiu sua rotina e não sabia como fazer para realizar seu sonho. Como não posso? Por que? Não pedi pra ser gente. Apenas, quando vi, já era.
Percebeu então que quando dormia, podia estar em outro lugar e mesmo com outras pessoas. Passou a sentir muito sono. Às vezes, perdia a hora da escola. Às vezes, chegava dela, nem almoçava e dormia longamente.
Esse menino não para de dormir?! resmungava a mãe. Tá virando um preguiçoso!
Mas o menino só dormia. Dormia e pedia a Deus pra virar estrela.
Uma noite, ficou na janela olhando o céu. Era tão bonito. Parecia em festa. Nesse dia, especificamente, havia muitas. A brisa acariciava-lhe o rosto. E o céu parecia tão distante e tão em paz. Adormeceu ali mesmo na janela.
Um nada inundou-lhe todo. Um nada brilhante e oco. Sem começo, nem fim. E não sabia dizer se era frio ou quente, nem porque, nem pra que. Apenas existia sem ter que se preocupar em ser gente.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Um arco-íris cultural na cidade do Rio




Nunca na história desse país se viu tantos eventos, festivais de cinema, teatro, saraus, literatura, pintura, seminários e encontros sobre a cultura gay. Alguns eventos, imperdíveis, vem acontecendo já há algum tempo, como o cineclube LGBTT Odeon, toda última sexta-feira do mês. Apesar de lotar sempre de gente interessante e de ser um evento super gostoso, muita bicha ainda não conhece. Vale a pena, não só pelos curtas que enfocam a homossexualidade sobre diversas matizes, mas também pelo clima descontraído e alto astral, onde sempre encontramos amigos e podemos fazer muitos outros... pela festa, que sempre rola depois da exibição dos filmes, e depois da festinha não faltam opções para esticar a noite na Lapa.
Gostaria de deixar duas dicas deliciosas: a peça O menino que gostava de ser. Um infantil que vai agradar muita gente grande, no centro cultural da Justiça Federal, uma adaptação do livro homônimo de Georgina Martins, autora premiada por seu trabalho na área da Literatura Infantil: A peça tem um ritmo bom, com um elenco afinado que diverte e comove.Próximas apresentações previstas: de 10 a 25/10. E a Mostra Internacional de Animação LGBT que apresenta algumas pérolas como Functional Desingn e a Descoberta de Luke, dias 01, 08 e 15 de setembro de 2009, no mesmo local. (www.mostrairis.com.br).
É um grande prazer viver este momento coloridíssimo na cidade maravilhosa! Vamos aproveitar!

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Teatro do Oprimido: Espaço do Diálogo

A conferência internacional de Teatro do Oprimido está acontecendo desde o dia 20 e vai até o dia 26 de julho, no Teatro Nelson Rodrigues. O encontro reúne pessoas de várias cidades do Brasil e diversos lugares do mundo. Todos acreditando num mundo melhor, transformado pelas ferramentas estéticas oferecidas por essa arte. Estabelecer o diálogo é possível porque a linguagem teatral é universal. E o teatro proposto é dialógico por natureza.
Numa época em que os meios de comunicação monologam seus padrões de comportamento pré-estabelecidos, seus arquétipos de beleza, tentando enquadrar todos os sujeitos em um modelo, que favoreça o mercado consumidor, o Teatro, especificamente o Teatro do Oprimido, propõe a (re)descoberta da palavra, da música e da escultura, através de sua proposta estética. (Re)descoberta a ser realizada por aqueles que não mais acreditavam ser capazes de expressar, através da arte, sua percepção da realidade. E nesse caminho descobrem que a mudança nos paradigmas é possível e o futuro não é inexorável, como postulava Paulo Freire. O prefixo “re” significa ação repetida; e o parêntese foi usado para maximizar sua importância. A gente vai REdescobrir porque a gente já sabia. O ser humano é o único animal capaz de ver-se vendo, de falar, ouvir a sua própria voz, refletir sobre a sua utilização, criticar-se a si próprio, ao que está sendo dito. É o único capaz de ver-se no outro e a partir do outro reconhecer-se, já nos ensinou Boal.
Esse redescobrimento de si mesmo e do mundo proporcionado por meios estéticos propicia o diálogo com outros diferentes. Diferentes porque cada sujeito carrega consigo seus próprios códigos de ética. Diferentes porque estamos inseridos em culturas diversas. Propicia o diálogo consigo próprio, pois é o ator-cidadão que está em cena.
A mentira teatral é verdade. E a reinvenção da realidade possível.

Apresentação do espetáculo “No Mama- Frutos da mesma árvore”

Grupo de Teatro do Oprimido de Guiné-Bissau

Como eu comentei, a conferência reúne grupos de várias partes do mundo. Entre eles o delicioso grupo de Guiné-Bissau.
Apesar das grandes dificuldades em que estão mergulhados os nossos irmãos africanos- coisa que não preciso citar, pois esse é o assunto principal quando se fala em África- o grupo composto por eles é o mais festivo, o mais alegre e o mais contagiante do encontro. Suas roupas muito coloridas enfeitam e encantam com sua música que transforma todos em dançarinos.
O espetáculo apresentado pelo grupo levanta o debate sobre o valor da tradição. Mais ainda: sobre o que está por trás dos ritos apoiados nessa tradição: a luta pela Terra. Quebrar a tradição, que muitas vezes favorece uns em detrimento de outros, pode levar a conflitos armados, muitas vezes, entre pessoas da mesma família e ou etnia.
A peça fala do poder disputado entre duas famílias, entre duas irmãs. O pai - o velho – era o responsável pela manutenção da tradição. Ele quem conduzia a cerimônia. De uma lado, estava a família da irmã mais velha e do outro, a família da irmã mais nova. Pela tradição, a irmã mais velha deveria mergulhar suas mãos primeiro na cambuca de água (o molhar as mãos nessa cambuca tinha um valor metafórico de representação do poder, assim entendi). E todos juntos então poderiam festejar. Porém, a irmã mais nova quebra a tradição, molhando antecipadamente as suas mãos. Essa atitude rompe com a família e deixa o velho desolado.
O espetáculo de Teatro-Fórum é uma cena curta que contempla um recorte da realidade. Nesse caso, em que a cultura do grupo é muito diferente da nossa, em que os comportamentos são norteados por outros valores, a compreensão torna-se difícil. Assim, os comentários serão de um olhar de fora. Vou me permitir comentar porque o diálogo foi proposto e só posso refletir a partir da minha realidade.
Uma das coisas que mais me chamou a atenção foi o posicionamento do grupo, que percebemos (nós platéia) no momento do fórum. Enquanto assistia, pensava no valor da tradição. Na importância dela em alguns casos e em como é importante seu rompimento em muitos outros. O grupo no entanto desejava dialogar sobre o comportamento da pessoa que quebrou a tradição e sobre a manutenção dela. Para eles, a motivação da irmã mais nova foi a inveja desta pela irmã mais velha.
Lembrei-me de uma história que ilustra bem o que senti a respeito da questão:
Um grupo de cientistas resolveu fazer uma experiência: puseram cinco macacos dentro de uma sala, com uma mesa e um cacho de bananas pendurado na altura da mesa. Quando um dos macacos subiu na mesa para pegar as bananas, o psicólogo deu um banho de água fria em todo o grupo. Assim procedeu com qualquer um que tentasse pegar as bananas. Uma, duas, três, quatro, cinco vezes. Ao perceber que o ato de subir na mesa para pegar bananas renderia para o grupo um banho de água fria, o grupo de macacos espertos convencionou que aquele que tentasse subir na mesa para pegar bananas levaria uma surra. Assim foi feito. Quando um macaco esquecia-se do banho frio e subia na mesa, movido pela fome de bananas, levava uma surra do grupo. Uma, duas, três, cinco vezes. Ninguém mais subia na mesa. Os psicólogos trocaram um dos macacos do grupo. O novato, sem saber das convenções do grupo, viu as bananas penduradas, e resolveu provar uma delas. Subiu na mesa e levou uma surra dos demais. Uma, duas, cinco surras e desistiu de subir na mesa. Os psicólogos foram trocando um a um, até que só restassem na sala macacos que nunca tivessem levado o jato de água fria. E quando alguém do grupo tentava subir na mesa, apanhava, até entender que com esse ato seria castigado pelo grupo. Tiraram as bananas e deixaram a mesa. Restaram os macacos que nunca levaram jato de água fria batendo em quem tentasse subir na mesa.
Muitas vezes, nós humanos, repetimos muitos comportamentos, sem nos perguntar o por quê estamos agindo daquela forma. Reproduzimos valores sem saber onde foram fundamentados e se na nossa realidade atual eles ainda tem algum sentido.
Para mim, a personagem que tentava quebrar a tradição na peça, que ela própria não entendia, apenas reproduzia porque assim o era desde sempre, é a impulsionadora da mudança; é a que deseja rever valores morais para construir uma nova forma de relação. Não sei se ela iria propor a forma mais justa, mas estava ela propondo a reflexão sobre o comportamento reproduzido acriticamente. Função do Teatro do Oprimido.